Crônicas de quinta (categoria) - Carta para não voltar

Venha cá minha rebeldia, vê se escute-me desta vez; é a última que falo. O café em cima da mesa se utiliza de toda teimosia para continuar quente à espera de ti; assim como eu. O rádio repete à dias a mesma canção e os livros insistentemente contam apenas uma história de final desconhecido. À dias que minha mente é cercada por uma tal pergunta; e venho evitando-a, minha criança. O medo da resposta assombra-me. Mas agora, aqui.. papéis, mãos e canetas encheram-se de vida e não controlo mais tais palavras. Por que se foi? O que aconteceu com nossa vontade de permanecer voando pelos céus, pairando pelos ares? Para onde foi-se os planos que havíamos escritos em cada cantinho de nós?

Se era viagem certa, podia ter levado contigo solidão e angústia. Em troca deixaria as cores. Este incolor enjoa-me; tornei-me desbotada. Eu gostava de olhar ao redor e ver tudo coloridinho. Quem sabe então, deixaria as flores. Animava-me o doce cheiro exalado da estante. Gostava do modo como o sol brilhava e a lua nos falava. Sabes, ela tem me olhado triste; tem pedido auxílio e conselho as estrelas.. Banhadas em ilusão. 

Pequenina… é tão difícil e dolorido usar o nós. Junto se vai tudo aquilo que n’outro tempo chamamos por nosso. Tão mais complicado voltar aos braços da (solitária) primeira pessoa. Tragicamente “nós somos” mudou para “eu sou”. E o vidro daquela nossa velha janela da frente começou a embaçar; privando-me da beleza do belo jardim. Sinto um vento cortante passando ao meio desta exausta menina aqui por dentro. Destruindo; levando; quebrando; e apenas deixando o vazio. 

Ah criança, quem dera escrevesse algo novo, inédito. Minhas palavras já devem ter cansado-lhe. Perdoe-me por isso. Portanto, peço-lhe que não preocupe-se com pouco; ficarei bem. A menina está aprendendo a ser mulher; e a metamorfose machuca. Qualquer dia voando nesta imensidão azul, por destino, quem sabe por sorte, ela trombe em alguém com asas tão grandes quanto as delas e sem medo da altura de voar. E neste tombo, criança, quem sabe ela não esqueça você em algum lugar. 



Crônicas de quinta (no domingo) - Criança perdida

Sou uma bola de confusão. Se encaixando em cada cantinho escuro e em cada buraco fundo. Vivo costurando retalhos, insistindo no velho. Mas quando me meto a ir em frente, a buscar no novo a cor que me falta, dou de cara com uma porta bem maltratada. Sempre um rumo com pedras, com burracos e escuridão. Quaisquer sentimentos não entram. Passáros não voam, nem cantam. O verde e florido, hoje se resume a cinzas. Onde a vida passa e ninguém vive. Meu peito chama pel’outro lado. A imaginação fantasia. Quem sabe a mesma menina daqui, não é a mesma menina de lá? Quem sabe lá ela realmente não seja uma menina? Porque no amor tem mesmo disso… caminhamos sozinhos buscando algum tipo de abrigo que nos leve de volta para casa. Feito uma criança perdida. A gente só quer voltar.

E sabe minha criança, não se envergonhe dos tapetes sujos ou de travesseiros amassados. Não se incomode com as borras de café. Muito menos com palavras escritas nas paredes. Não peço um mundo novo… um mundo nosso bastaria. Sair voando, deixando as lembraças no passado. Fazer com que o sol entre, nos aquecendo por dentro. Na bagagem somente o novo e desconhecido. Sem peso, tudo leve. Somente o nosso quebra-cabeça. Lhe ajudo a deixar tudo colorido outra vez. Ajudo a luz entrar. Prometo trocar seus pesadelos por sonhos, e noites mal dormidas por dias bem vividos. Prometo que o grito cessa. Que a flor se abre. Que a lua sempre volta. E que a antiga sombra desaparece. Só não prometo ir embora no final. Porque sei que assim, eu chego d’outro lado dessa porta. Deixe de besteira criança.. Só vou entrar e arrumar essa cama.



Crônicas de quinta (categoria) - Romance nas vielas da cidade de prata

Uma blusa com listras vermelhas, uma calça jeans com um pequeno buraco no joelho esquerdo, all star vermelho e uma leve maquiagem no rosto. Delicada, andava pelas ruas, rindo de bobagens que os amigos comentavam…

Eu pensava: ela é a garota para mim! Essa é a garota pra mim!

Avermelhava nossos lábios o vinho que tomávamos, enquanto meus olhos se mantinham numa só direção. Eu via só ela, inerte no seu sorriso, sentada num banco de praça, cheio de garrafas e copos de bebida, e algumas sacolas. Era como se ela se apresentasse num palco, como a atriz principal, enquanto uma luz seguia seus movimentos por onde ia e eu, bobona, de boca aberta, era o único presente que se derretia a cada passo dela.

Eu tentava prever seus movimentos, seus pensamentos e a sua próxima ação. Imaginava um universo paralelo, distante de tudo e de todos, onde poderíamos nos amar, sem medo do mundo, sem medo do futuro e sem medo de nada. Foi quando ela se levantou e veio em minha direção. 

Eu, sem graça, pedi um abraço. Ela estendeu os braços, como se quem também o desejasse, me abraçou forte, enquanto sussurrava algumas palavras no meu ouvido. Deixei cair uma lágrima, mas rapidinho a escondi, sem que ninguém a notasse. Nem ela.

- Vamos dar uma volta comigo! Disse ela.

Juntamos as mãos e fomos desvendar as vielas da cidade de prata.

Eu, tentava desvendar os segredos do seu coração. E ainda hoje, sinto seus dedos entre os meus… 



Crônicas de quinta(categoria) - Desamor em três atos

1. Quando tudo não se encaixa mais. Quando os horários desencontram. Quando os dedos não se entrelaçam. Quando a alma se perde junto do mar. Os olhares mudam e a dor aumenta. O amor da o lugar ao ódio. Conversa da o lugar a discussões e os afagos são dispensados. Este ato é o mais difícil e não o mais doloroso. Palavras ofensivas atingem o próximo e a si mesmo. E o culpado nunca será você. Tudo ficará confuso. Tudo lhe fará chorar. A vontade de vingança irá correr pelas suas veias. A faca sairá e entrará com rapidez em seu coração, o matando rápido.

2. Quando a aceitação virá falsa. Quando larga tudo para tentar viver de um jeito mais intenso sem ao menos perceber que se afunda cada vez mais no mesmo buraco. Quando consegue ficar uma hora ou até mesmo duas horas sem pensar na tal pessoa e por isso acha que já está livre do sofrimento ou do amor. Este ato não chega a ser tão doloroso quanto o terceiro. É mais calmo. Ele é falso. Iludi-te com perfeição.

3. Quando a aceitação virá verdadeira. Quando os olhos se abrem. Quando a faca entra e sai calmamente pelo seu coração, o fazendo doer de uma forma indescritível. Este ato pode ser comparado à morte. O teto cai por cima de você com uma delicadeza o fazendo sentir cada segundo da dor. O terceiro ato é o mais cruel. Faz-lhe suplicar a Deus por um colo. Por um minuto sem deixar uma lágrima derramar de seus olhos. A história acaba. O amor continua para um dos dois. E mais uma vez o desamor vence.



Crônicas de quinta – Fin

Faz frio aqui. Não sei se tenho febre, ou se de repente a temperatura caiu.
A vida perdeu a graça.
Essa clausura, essa falta. Dói.
As cores perderam seu som – andam mudas, vazias.
Os rostos, sem expressão. Tão mortos, apagados.
As músicas não têm mais acordes, são letras, levitando no vácuo.
Parece que todo mundo lá fora resolveu sair pra viver ao mesmo tempo, enquanto eu fico aqui. Sozinha.
Sinto falta dos meus amigos. Sinto falta das piadas, das risadas. A vida era boa.
É como se tudo tivesse morrido assim, de uma hora pra outra. Sem aviso prévio.
Restaram as fotos, as lembranças em sépia.
As mariposas no meu estômago voaram pra longe; A minha única companhia em anos.
As palavras perderam o sentido, como se fossem escritas em um idioma que eu não falo.
A vida, como encerrasse um ciclo. Como se chegasse ao fim outra vez, e tudo parece distante, assim como está.
A esperança morreu. Levou consigo a ansiedade por um novo sol. Levou consigo minha luz. Meu ar. E me largara aqui.



Crônicas de quinta(no sábado)

O relógio bateu exatamente às 9h. Os corredores viraram um verdadeiro inferno, minha cabeça explodia e a esta altura eu só precisava de um bom descanso. Noite passada mergulhei nos livros e faz tempo que não sei o que é dormir. Fui levada até o auditório pelos esbarrões dos meninos do basquete. Meu corpo estava tão leve que até o vento derrubava-me. Entrei naquele lugar escuro, as cortinas estavam fechadas e nem um feixe de luz podia ser encontrado. Sentei-me na última carteira e sem ao menos perceber meu corpo já estava totalmente jogado na parede. A gritaria continuava, mas o cansaço não deixou isto incomodar-me. Passou-se cinco minutos e eu já estava sonhando com a minha cama quente. Desejava sumi daquele local e orava para que aquele palestrante faltasse.
-Olá. - A voz despertou-me. Abri os olhos e pude enxergar um homem alto, muito bem vestido. Com as mãos sobre a mesa, encarando-nos com um olhar bem agradável e um sorriso que soava cínico. Limpei meus olhos e em poucos segundos o homem estava em minha frente, olhando-me de cima a baixo com o mesmo sorriso nos lábios
— Cansada, querida?!

— Um pouco. - O respondi. Ainda espantada com a situação

— Acorde ou saia. - Ele disse, agora com um tom de voz desafiador. Arrumei minha coluna, prendi meu cabelo ao alto e sorri para ele demonstrando está satisfeita com aquele desafio e ele sem ao menos falar mais alguma coisa virou-se e voltou para o seu lugar. Riscou a lousa e distribuiu alguns papéis e perguntas.

— Quero que me respondam com a mais possível sinceridade e não precisaram assinar o nome. - Ele disse enquanto olhava-nos com um sorriso cafajeste. Não entendia o porquê de tantos sorrisos. Não entendia o porquê daquilo se era apenas uma palestra sobre sociopata. Ele era estranho, mas por um momento esqueci aquilo e fiz o que mandou. Entregamos as atividades e então entregou-nos outra folha, porém desta vez estava branca e apenas fez a seguinte pergunta:

— Acham que dentro desta sala há algum psicopata? - Minhas mãos ficaram trêmulas na hora e meu olhar não se desviava do dele. O medo subiu em meu corpo, mas não por ele achar que havia um, mas sim pelo modo que ele perguntou. O riso transparecia em seu olhar. Eu cursava medicina, mas entendia um pouco sobre assunto e como reconhecer um pouco deles. Nesta hora meu olhar já estava para a turma inteira e no final parado nele. Olhei para o papel e sem pensar duas vezes respondi que sim. Tive certeza que existia um ali e um dos piores gêneros. Os que sabiam perfeitamente quem eram. A moça recolheu todos os papéis e o entregou. Ele ficou por uns 10 minutos analisando e só havia um sim O meu!

— Interessante. Só uma pessoa disse sim. Gostaria de se manifestar? - Ele perguntou, com um tom de jogo. De estratégia. De satisfação. Nesse momento não sabia o que fazer. Os alunos se olhavam discretamente e eu tentei fazer o mesmo. Não queria que ele descobrisse que era eu. Parecia que pesquisava em cada um de nós alguma coisa. Pensei em levantar e sair-me, mas senti que ele iria saber que era eu. Então comecei a encará-lo, mas logo abaixei a cabeça. Estava explodindo por dentro, quase morrendo. O medo me matava e gritei, mas foi um grito bem alto. Era o; O susto entregou-me. Todos os alunos levantaram e saíram rindo, com certeza devia ser por conta do meu grito. Ele passeou calmamente até minha carteira. Parou em frente a ela e inclinou-se até encostar seus lábios em minha orelha.

— Sabia que psicopatas não tem sentimentos e muito menos consciência, pequena? Pelo menos é isso que a Ana Beatriz Barbosa diz a respeito. Eles são ruins e não sentem compaixão ou pena. Matam e sentem prazer. Um prazer indescritível. Um prazer que uma puta não pode dá-lo. Um prazer que essa sua pele talvez me de. -Deslizava seus dedos ásperos sobre minha pele enquanto sussurrava. - O empurrei, com força. Com muita força e agora estou aqui. Preciso do meu remédio, Dra. Roberta.

— Calma Andressa. Isto irá passar e nossas sessões irão continuar. Não adianta se alimentar de drogas. O que houve com você foi algo destruidor, mas você irá se recuperar e este homem nunca mais irá encostar em você. Olha onde estamos. - Roberta abriu a janela e a Andressa pode avistar um mar de sangue que a sugava para fora.

— Andressa? Andressa? Fale comigo. Está bem? - Roberta empurrava o corpo da jovem que estava deitada sobre uma poltrona bem confortável naquele consultório psiquiátrico.

— Andressa? O que houve? Eu já trouxe seu café. Podemos conversar agora.



Crônicas de quinta(no domingo) - PARTYGIRL

3 da manhã, boate cheia, música alta, corpos que dançam, copos que tremem. Ela adora essa vida.
Nos dias de semana, ela navega na internet, e trabalha em meio período.

Nos finais de semana, seus preferidos, ela sai com os amigos e enche a cara.
Mil copos, mil bocas: esta é sua lei. Quantos mais ela bebe, mais ela beija, e mais ela adora isto.

Na verdade ela tem medo de ficar sozinha. Desde que se encontrara entre o amor e a covardia e escolhera a segunda opção, ela foge do destino.
Ao beber, anestesia sua solidão. Ao beijar, ela doa a cada boca infeliz um pouco de solidão, como uma abelha quando larga o pólen de flor em flor. Ao dançar, ela transforma em físico o desconforto emocional, em passos fortes e pesados.

No fundo ela é carente. Por isso se apegou tanto aos amigos, mesmo sabendo que estes não valem o chão que pisam.
Após perder aquela que mais a valorizava no mundo, ela tem medo do que mais pode perder. É a legítima vaquinha-de-presépio, movendo sempre o pescoço em sinal de positivo, concordando com tudo e seguindo outros passos, pois tem medo da solidão.

Tem medo do karma, de se encontrar refém do que ela mesmo causara a outro. Sua máscara tem trincos, sua armadura, rachaduras.
O ritual de escapatória da autopiedade é constante, e cego, e doloroso.
Na verdade ela só quer ser amada novamente, só quer um lugar no mundo e um abraço quente pra confortá-la. E perdera isso.

No banheiro, sozinha, ela lembra. Dos beijos, das juras, das trocas, do sexo. E chora, enquanto a água quente lhe recai sobre a cabeça, enquanto a sombra que ela não tirou dos olhos escorre e lhe borra o rosto.
À noite, ela sonha. E acorda assustada e receosa pela sua esperança quase morta.

As noites de álcool e beijos grátis não passam de uma desculpa pra preencher o vazio que a sua vida se tornara, e ela não admite porque tem medo de encarar a verdade, se não pelo reflexo das palavras da única que enxerga através dos seus disfarces. Ela tem medo.
Ela só quer amar e ser feliz de novo. Mas ela não vai.



Crônicas de quinta(Categoria) - Eu Disse Estas Palavras Alto

…Tão alto que quase me deixaram surda.
A ressonância da minha voz fazia com que minha garganta ardesse.
Os dedos, me puxavam os fios de cabelo, minha cabeça doía.

A fala se tornara um grito, que de tão agudo destroçara as janelas naquele quarto escuro.
O desespero, a angústia, a agonia e a dor, se misturavam num coquetel venenoso e instantâneo.
Saborear o inferno, a pior das sensações. O calor me fazia tremer.

Os pensamentos saíam de mim, se tornavam feixes de luz. Uma luz que me cegava.
Eles ricocheteavam nas paredes e se voltavam contra mim, me queimavam de ponta à ponta.
Câncer moral, em estado terminal. O coração corroido, o conteúdo destruído, dor.

Aquelas cenas na minha cabeça se transformaram num filme,
a cada ato, uma costela quebrada, com a força de mil joules me pisando e me fazendo chorar.
A umidade do meu pranto me transforma em pântano, me faz rastejar.

Se esse não é o prelúdio do fim, é o epílogo do começo.
Do começo da tortura, do fim do sofrimento, do decorrer da vida.
Da dor, da agonia, da amargura, do descontentamento, e da solidão.

O mundo continua girando lá fora, meu coração continua batendo aqui dentro.
Até quando?



Crônicas de quinta (no domingo) - Argumente Com a Fome de Meu Revolver

Pisaram em cima dela, cuspiram e então a espancaram até quase morrer. Um fogo nasceu do fundo de seu peito, puxando sua alma para perto do fogo infernal da raiva. Cada rosto marcado, cada sentença dada. Eles poderiam ter vivido. Poderiam crescer e possuir famílias infelizes com intrigas fúteis sobre comida e sexo. Mas não iriam ter. Não a mataram.

    O sangue derramado secou, ossos quebrados se curaram rapidamente. Algumas cicatrizes permaneceram, estas apenas para alimentar a vingança. Se soubessem, desejariam morrer. Um único revolver que falava, que rangia e reclamava de fome. Uma fome intensa, compartilhada com a de sua dona. Bem no fundo, os dois eram um só.

    Não subestimar uma garota que sofre. Esqueceram-se deste ensinamento. Logo um por um fora encontrado. As lágrimas eram as mesmas, o arrependimento nos olhos era latente. Não adiantaria em nada, ninguém conseguiria argumentar com a fome do revolver humano. Um por um, torturados e silenciados, pagaram o preço aceitável pela dor da garota, assim a mesma pensava. E ninguém mais disse nada, ninguém ousaria argumentar contra a fome do revolver. Nem mesmo a menina, vitima da compulsão da arma.



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